Olho para fora, justo quando
a primeira estrela surge no horizonte,
escorregando entre um maço de nuvens de algodão
colorido,
pontilhando com seu brilho os tons rosa e alaranjado do poente
...
Faz pouco tempo, ainda chovia ...
Agora, entretanto, o asfalto reluz, espalhando reflexos metálicos
na tarde,
os letreiros luminosos derramam rabiscos coloridos nas calçadas,
as árvores exibem a farta folhagem cintilante,
há um perfume de lavanda pelo ar ...
A vidraça ainda guarda respingos de chuva, num caledoscópio
incolor
que me confunde a visão, mas encanta meus sentidos, em
sua mágicas
formas...
Vejo pombos nos nichos das janelas, observo algazarra de crianças
a
pisar nas poças d´água, acompanho a pressa
dos homens e mulheres
que voltam do trabalho, delicio-me a comparar o tom dos carros
com a tampa das panelinhas azuis e cintilantes da minha infância
....
Quantos detalhes para ver, sentir, perceber !
Quantas sensações ao meu redor, quanta beleza a
descobrir,
quanta vida, quantas emoções, corações
dos quais jamais
saberei o compasso, personagens anônimos que atravessam
a paisagem
dos meus dias, sem que eu lhes conheça o nome, o som da
voz, o mais
breve dos sorrisos ...
No fundo da minha emoção surge uma prece por tudo
quanto existe,
por todos que compõem, ainda que não saibam, esses
breves momentos da
minha existência.
- Que mundo maravilhoso !
Fecho os olhos e permito que a noite venha me esconder, afugentando
as
sombras de dentro de mim ... .