Agora, depois de desabar a tempestade,
depois de estremecerem as frágeis vidraças da minha alma,
tendo ainda, diante de mim, a paisagem devastada dos meus sentimentos,
trêmula ante a lembrança dos fantasmas dos meus medos...
Agora, tu queres voltar a ser o sol,
queres recolher as hastes retorcidas que ficaram,
pretendes desmanchar os nós entrelaçados dolorosamente,
sopras uma brisa mansa, quando trouxeste a fúria e o vendaval ...
Agora ?
Juntei os restos da coragem para rabiscar um horizonte perdido,
acender este silêncio ao meu redor emudecendo as dores que ficaram,
equilibrar meus passos vacilantes sobre o velho tapete da sala de estar,
saturar-me de lágrimas amargas até não poder mais ... .
E agora ,
quando espio lá fora e vejo que o tempo não parou,
que a vida prossegue naturalmente, quase indiferente à minha dor,
sei que o espelho tenta mostrar a figura bizarra que represento...
Agora,
quando tu permaneces do lado de fora,
vejo tudo que deveria ter visto e nunca quis,
entendo que ninguém pode viver a vida de ninguém,
e que fui eu quem não cuidou de ser feliz.