A janela entreaberta deixava passar a luminosa rede de luar
a rabiscar no chão pegadas de sonhos, estrelas, lembranças ...
O silêncio da noite perfumada, enroscada nas verdejantes hastes
que destacavam-se cintilantes contra o céu escuro,
povoava de magia as horas que, recém despidas do sol,
mergulhavam lentamente na lagoa enluarada
da amplidão em tons de índigo...
Algumas estrelas surgiam tímidas, pérolas pequeninas a pontilhar
os véus da noite com seus brilhos encantados,
fadas a espiar - lá do alto! - as teias que a saudade e a melancolia
teciam sobre a paisagem.
Debruçado na janela, ele, dono daqueles olhos azuis como o mar do inverno,
capturava a ternura gravada na paisagem,
preenchendo as lacunas do coração com o cenário silencioso
daquele momento...
Um suspiro afundou seu peito na ânsia de um beijo,
numa promessa de carinhos, na latente presença de um desejo ...
Apagando o cigarro,
puxou as cortinas rendadas sobre os tons noturnos,
e sorriu com o mais belo sorriso que já se viu,
ao mergulhar nos verdajantes olhos de minha mãe.
Romântico inveterado, eterno enamorado : meu pai.


11/06/2006 - 12:10h