
Olhei
para fora,
vi o vento despentear as árvores nervosas.
Uma fina garoa caía sobre o rio,
encrespando suas águas acinzentadas ...
Contra a paisagem deprimida, teu vulto assemelhava-se
à sentinela solitária, impassível na despedida,escondendo
suas feridas
e suas lágrimas...
Encostei meu rosto na superfície fria do vidro da janela,
tentando capturar tua imagem para sempre,
tatuar tua figura na retina dos meus olhos inconformados ...
O trem começou a andar.
Lentamente o céu foi ganhando uma dimensão
irreal atrás de ti .
Tuas mãos erguidas pareciam pássaros
feridos, sangrando gestos resignados,
sentimentos vencidos pela dor da vida.
O frio gelava meus dedos crispados sob a luva,
enquanto um outro frio invadia as entranhas da minha alma,
como se a distância que apagava teu vulto
também apagasse a vida dentro de mim ...
Encostei minhas mãos aflitas na janela,
tentando deter-te, reter o tempo, parar o mundo,
mudar a história dos meus dias ...
Mas tudo era em vão. Nada foi possível.
Num instante fugaz, sumiste do arco dos meus sonhos,
desapareceste na curva do caminho, assumiste a proporção
de um momento cravejado de momentos eternos ,
quando o para sempre necessita render-se ao nunca mais ... .

|