Ah, espelho! lâmina fria que reflete algo que me representa...
Onde estão as marcas que até ontem delineavam os cantos da
minha bôca, derrubavam o arco das minhas sobrancelhas,
vincavam meu rosto qual cicatrizes deixadas pelo tempo?
Diz, espelho!
Aonde foram as angústias que empalideciam o brilho dos
meus olhos,
os medos que impediam meus sorrisos,
o cansaço a engruvinhar minha pele e vergar meus ombros ?
Por que me olhas desse jeito ?
O que tentas descobrir sob a tênue aura que me envolve,
que capturas sutil e gentilmente,
quase como se temesses macular esse momento?
Ah, espelho!
frágil testemunha das desbotadas faces de mim mesma,
será que não sabes a razão de eu parecer tão diferente diante de ti ?
Olha-me bem, eu te suplico !
Não vês que há uma menina na menina dos meus olhos,
e que ela está vestida de esperanças,
que está sorrindo seu sorriso de criança,
que está crendo, esperando, vivendo um novo querer bem ?
Não!
Nem ouses levantar tuas suspeitas, teus temores
nem inventar traços de dúvidas para tatuar nesta felicidade !
Há um toque de afeição dentro do peito,
e eu vou viver o que eu tiver direito,
porque esta é a magia da vida, que nos cabe...